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Conversa com Vovô Manoel

Esta conversa foi gravada na manhã do dia 26 de setembro de 2000, na acolhedora varanda da casa do vovô Manoel, onde ele gostava de receber as pessoas que lhe visitavam. Rusimário Bernardes, filho de Ercídio Bernardes e Maria Vitória Faria Bernardes, foi quem gravou a conversa e fez as perguntas ao vovô Manoel.

De um início, buscando o ponto de vista a respeito da velhice, a conversa foi tomando outros rumos. Rumos esses que não foram barrados. Feito água do ribeirão, percorreram livremente, nas lembranças do vovô Manoel e no seu jeito gostoso de retratar o passado, os caminhos de uma vida simples e de dignidade.

A conversa perdurou por mais de uma hora, porém, foram gravados apenas trinta minutos – o tempo de um dos lados da fita. De tão boa estava a conversa, esqueceu-se de trocar de lado a fita. Infelizmente, o restante desse momento, só paira, agora, nas lembranças de Rusimário.

Aqui, estão transcritos dezessete minutos dos trinta gravados naquele dia.

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MB – Manoel Bernardes
RB – Rusimário Bernardes
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Conversa com Vovô Manoel

RB – Vô, diz o Estado Brasileiro que a gente fica velho depois que atinge 60 anos de idade, a partir de 60 anos de idade. A gente percebe que está velho?

MB – Percebe nada. A gente percebe o seguinte assim, que a gente vai enfraquecendo, vai ficando ruim pra dormir, ruim pra comer, ruim pra caminhar, ruim pra tudo a gente vai ficando. Cada tempo que passa a gente vai piorando. Vai só piorando, ‘miora’ não, só piora. Você imagina, eu já fui até no CTI. Já fui duas vezes. Tenho sofrido coisas horrorosas, aquilo concerta, ‘miora’. Eu tô ai! Mas não presta não. Presta pra nada mais, ‘acabô’.

Eu já fui homem pra tudo, trabalhador. Trabalhei demais, não tinha medo do serviço. Não tinha férias, nunca tive. Tratei da Juversina 33 anos, só médico e farmácia. Até que ela morreu e me largou ai. Eu tô ai até hoje. E não tive ajuda de ninguém, me tratei com o meu serviço, com o meu braço. Dei conta de tudo, não fiquei devendo ninguém.

RB – Então só o corpo que vai ficando fraco, a cabeça continua do mesmo jeito?

MB – Não, até foge alguma coisa. Muitas coisas fogem. Às vezes, eles me perguntam as coisas, eu falo pra esperar um ‘muncadinho’. Eu vou calmo, vou pensando, não dou conta. É muito difícil, vai sumindo tudo.

RB – Mas é diferente?

MB – É diferente.

RB – O senhor tem quantos anos?

MB – Oitenta e sete. Que vê faz a conta. Eu sou do dia dez de janeiro de ‘mili’ novecentos e treze. ‘Qué dizê’, pra quinze, dois né? Pra vinte, sete. Agora, pra oitenta, oitenta e sete.

RB – O senhor sente diferença dos oitenta e sete anos, pros cinqüenta, sessenta anos?

MB – Hihhh... Nossa Senhora. Grande. Eu até os meus setenta anos, eu não tinha nada custoso pra mim, tudo era ‘bão’. Tudo. Eu levantava de madrugada, pegava no serviço. Quando tocava serviço, quando os companheiros chegavam cedo no serviço eu já tava com tudo controlado, a areia coada, massa no jeito. Era só o companheiro chegar e pegar no serviço. Toda vida eu fui assim. Dava hora de ir embora, eles iam embora e eu ficava controlando as coisas que estavam erradas. Pra ficar fácil pra manhã cedo. E aquilo pra mim era uma beleza, eu não sentia canseira, eu não sentia nada.

RB – O senhor trabalhou até que idade?

MB – Eu trabalhei até a idade de setenta e cinco, setenta e seis anos. Ainda trabalhei, depois fui obrigado a parar, pois a vista sumiu, a vista acabou. Fui obrigado a parar. Mais a idade acaba com a gente. A idade não é brincadeira não.

RB – O quê que mudou, no fato do senhor ficar velho?

MB – Mudou que a gente enfraqueceu. Ficou fraco. Não tinha a resistência que a gente tinha no tempo de mais novo. Acabou. Enfraqueceu. A gente não agüenta nada.

RB – O senhor era uma pessoa ativa, trabalhava demais, sempre trabalhou. E depois que teve que parar de trabalhar, como foi isso.

MB – Sempre trabalhei. Parou porque a vista acabou e eu não pude dar conta mais de trabalhar. Não dava conta de enxergar uma linha pra assentar um tijolo, pra mais nada, não tinha jeito de fazer mais nada.

RB – Mas com essa vida do senhor, que o senhor sempre trabalhou, sempre correu atrás, fez as coisas. De repente, ter que parar e ficar sem trabalhar. Como que o senhor aprendeu a conviver com isso?

MB – Até hoje eu ainda sinto mal. Eu tinha vontade de estar trabalhando. Eu fico aqui, eu vou pra rua, ficou na rua, volto pra dentro, aquela vontade de trabalhar, mas não adianta. Ás vezes eu pego uma enxada, vou capinar a horta ‘muncadinho’, é uns dois, três minutos e eu tenho que largar a enxada. A força não quer. Não tem força mais. A força acabou.

De maneira que a gente vai. Papai, quando criou nós, teve umas coisas que ele falava e eu nunca esqueci. Primeiro que ele falava era o seguinte:
“Olha gente eu vou morrer novo, que eu to muito doente” – ele era doente mesmo e morreu novo – “mas olha, vocês que vão viver, vão ver muitas coisas. Os bobos não vão acabar e os ladrões vão aumentar”.

É o que a gente vê todo dia e toda hora. Eu mesmo fui bobo. Eu tive com uma fortuna na mão, na minha mão e entreguei pros homens. Que eu achei né? Não era meu. Achei uma carteira cheia de dinheiro que o dono da carteira comprou “mili boi” e pagou com o dinheiro que estava na carteira. E eu entreguei direitinho. Achei numa estrada. Fui bobo não fui?

RB – E ele não deu nada?

MB – Deu, deu. Na época, no dia, ele deu uma nota de cinqüenta ‘miréis’, aquilo era um dinheirão na época. E depois eu contei a ele que nós tinhamos um gado de corte, uma carne de corte, que nós comprava muito. Papai fazia nós comprar pra juntar, pra vender. Aquilo era baratinho, comprava uma vaca boa por quinze ‘miréis’. Nós trabalhava igual a um doido, nós plantava cinco alqueires de roça todo ano. E eu falei com ele, ..., nos vamos comprar o gado de você. Marcou o dia, e foi.

Que eu cheguei lá em casa e contei o papai o que aconteceu, que tinha achado a carteira no caminho. E a carteira não cabia nos bolsos e eu coloquei numa capanga na cabeça do arreio. Passou uma ‘chimbica’ por mim – um fusquinha de antigamente, os ‘automovido’ – e três homens dentro. Achei a carteira, peguei e vi que tinha muito dinheiro. Pelejei pra arrumar no bolso, não consegui e arrumei na capanga na cabeça do arreio. Montei no cavalo e fui. Quando eu andei mais ou menos uma légua pra frente, lá vem a chimbica pra trás. Parou de pareia comigo e me perguntou:

- De onde é que o senhor vem?

Eu falei, eu venho lá de Serra Negra. Naquele tempo era Serra Negra. E por acaso o senhor não achou uma carteira ai na rodovia não?

- Achei não senhor.

- Nós perdemos uma carteira. Eu coloquei o paletó na porta do fusca e disseram que ela caiu e perdeu. Chegamos lá em Patrocínio, procurei a carteira e não achei e nós viemos pra trás pra ver se acha.

Eu fui e perguntei pra ele: Que jeito é a carteira do senhor? Ás vezes a gente dá um jeito e vê se descobre onde é que está essa carteira.

E ele me contou o jeito da carteira direitinho, Rusimário. Eu meti a mão na cabeça do arreio assim ( me mostra o jeito que fez), na capanga e falei: Será que é essa?

- É essa mesmo. É essa mesmo. O senhor achou aonde?

- Eu achei em tal lugar, assim e assim.

- Está certo.

Ai ele falou: Você vai pra Patrocínio?

Eu falei, vou. Vou lá comprar um remédio. Remédio pra frieira, que o papai mandou eu comprar.

E ele: ta bão, vai naquela fazenda, arreia o seu cavalo ali, e vem cá, entra no chimbica aqui e nós vamos. Nós te levamos na cidade.

- É mas, depois pra mim voltar? E ele disse, não, nós te trazemos aqui de novo.

Eu fui lá, conversei com o homem, um velhinho, peguei o cavalo e soltei lá no pasto e entrei na chimbica e nós fomos lá pra cidade.
Chegando lá ele parou na porta do Hotel Santa Luzia e ele falou assim, vamos entrar no hotel.

Eu falei, não. Não senhor, ..., eu vou ver se eu compro uns remédio pra ir embora.

- Então você faz o seguinte, você compra os seus remédios lá que você tem que comprar e na hora que você estiver pronto, você vem aqui e chama fulano de tal.

Falei, está bem.

Eu fui lá, comprei os remédios, arrumei tudo e cheguei na porta do hotel, bati, chamei, ele veio.

- O senhor já arrumou tudo?

- O senhor disse que me levava lá onde ta o cavalo.

Ele disse, agora. Agora.

Parou o carro na rodovia, eu fui lá, arriei o cavalo, ele ficou um tempo lá. Larguei o cavalo, perguntei o homem quanto é que pagava, ele me cobrou cinqüenta centavos o pasto. Paguei, na hora. Cheguei cá na rodovia ele tava.

Ai ele disse, senhor ‘Manele’, quanto é que o senhor ganhou pra entregar pra nós a carteira?

Falei, não ora, não ganhei nada, eu achei na estrada e entreguei também. Não ganhei nada não.

Ele disse, olha, não é possível senhor ‘Manele’, você, um moço novo, tão direito desse jeito.

Eu falei, quê que foi sô?

Ele disse, a carteira que você achou, nós vamos compra do Mário, ‘mili’ boi e vamos pagar com o dinheiro que estava na carteira. Se você não entrega, você podia comprar uma fazenda cheia de boi pra você. E o quê que nós podíamos fazer com você? Não podíamos fazer nada. Nós não podíamos provar que você achou a carteira. Você também podia falar que não achou. Estava pronto. Tirou uma nota de cinqüenta mil. Cinqüenta ‘miréis’. ...

Cheguei contei o papai. Papai disse: naaão, é assim que faz meu filho. O dinheiro não era seu, você achou, apareceu o dono, você entregou. Está certo.

Ai eu tirei o dinheiro e dei pra ele. Papai não deixava nós com dinheiro, nenhum tostão. Nós trabalhava, ganhava o dinheiro e tinha que dar o dinheiro pra ele. Ele é que tomava conta. Você queria qualquer coisa, pedia pra ele o dinheiro. Ele dava duzentos réis pra gente ir numa festa.

- Você fez muito bem.

- Eu fui, dei o dinheiro pra ele e ele me deu esse dinheiro.

- Ele te deu uma fortuna. Dá pra você comprar dez novilhas.

Fui entreguei pra ele o dinheiro e contei pra ele o caso que eles iam lá pra ver o gado. Mandou nós comprar gado. Vai comprar. Anda pra todo lado, ..., vamos por nos pasto.

Nós fomos comprando e reunimos cento e vinte vacas. De corte.

E o homem chegou. O encontro foi no dia certo, eu vi, a chimbica apontou lá, ia até lá na porta. Eles estavam de carro mais iam até lá na porta. Eu tinha ensinado eles direitinho, eles riscaram, como é que era. Quando apontou lá, aquele barulho, aquele carro eu falei, papai, os homem lá vem. Aquela chimbica é dos homens.

- Então ta bão.

Papai recebeu eles muito bem, agradou, demos comida, fez tudo. Reuniu as vacadas, ..., ele disse:

- Olha, eu compro as vacas de vocês, mas vocês tem que levar na Catiara. ... Tem que levar e entregar lá porque eu não posso levar.

Ai papai disse, não, nós fazendo negócio, eu mando levar lá na Catiara. Não tem problema não.

- Qual o preço que o senhor me paga esses vacas?

Ele olhou e disse, eu vou te pagar a trinta ‘miréis’ cada uma.

Papai entregou na hora. Tinha vaca que custava quatorze, quinze. A mais cara custou dezenove ‘miréis’.

Ele disse que pagava trinta ‘miréis’, entregou, pagou o papai.

Tinha uma novilha muito bonita lá na porta. Uma novilha amarela, gorda, bonita, já tava sortida. E ele danou pra comprar a novilha.

- Senhor Bernado, vai me vender esta novilha.

Papai disse, ah essa eu não vendo não.

- Não, vai me vender.

Foi mexendo, foi mexendo, papai foi e falou pra eles:

-Vocês não tem coragem de me dar sessenta ‘miréis’ nessa novilha.

Ele botou a mão no bolso e pagou os sessenta ‘miréis’ o papai.

Pagou o papai, me abraçou e disse: a novilha é sua “Manoele”.

Levamos esse gado e entregamos pra ele lá na Catiara.

Papai disse, oh que gente boa meu filho. Te deu cinqüenta ‘miréis’, agora te deu essa novilha, pagou sessenta ‘miréis’ da novilha, eu achei que ele não tinha coragem de dar, ele pagou.

Essa novilha pariu mansa, boa de leite. E tinha um sujeito lá, um preto, pobre. A mulher dele criou e secou o leite. E ele chegou lá em casa procurando com papai uma vaca. Se papai podia arrumar uma vaca.

Porque papai era um homem de todo mundo, atendia todo mundo.

Se papai não tinha uma vaca lá que podia levar pra casa dele pra criar o menino. Era um menino homem.

Papai disse, não, eu não tenho. Minhas vacas estão todas desmamando. Ai tem uma novilha nova, do ‘Manele’. Uma novilha mansa, muito boa de leite. Vamos conversar com o ‘Manele’.

Me chamou, eu estava ‘batendo um pasto’, cheguei lá. Papai me contou o caso, que ele estava querendo uma vaca de leite pra criar o menino.

Falei não papai, pode dar essa novilha, nós passa ai sem leite. O quê que tem. Tem umas vacas desmamando mas dá leite uns dias. Vaca fulana vai parir, fulana vai parir, nós não fica sem leite não, vamos dar.

Papai falou, pois então vamos levar a novilha. O senhor vai criar o seu menino.

Peguei mais duas vacas e levei essa novilha lá. Chegou lá, um curralzinho ruim, mas um pasto bom. Fechamos o bezerrinho lá no curral e a vaca no pasto e nós tocamos as outras vacas pra trás.

Essa vaca ficou lá um ano, na casa desse velho. Criou o menino, deu leite pra criar o filho dele, deu leite pra eles tudo, porque a vaca era boa de leite. E ficou lá, não juntou com boi nenhum, ficou lá um ano. O bezerro tava do tamanho dela quando nós fomos lá buscar a vaca, é que arrumou com um boi pra surtir de novo. Essa vaca deixou uma produção enorme lá em casa, mas enorme mesmo.


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